quarta-feira, 20 de maio de 2015

Não há que ter um olho roxo



Todos os dias milhares, atrevo-me a dizer milhões, de mulheres são vítimas da violência de gênero.

Levantam-se prontamente as vozes que reclamam que também os homens o são, e cada vez mais. Sim, pode ser, mas hoje quero falar das vítimas históricas, as mulheres.

E não, hoje não é dia nem nacional nem internacional, nem nada de especial, é apenas o dia em que me apercebo que muitas mulheres não enxergaram ainda que há coisas que não são normais nem admissíveis.

O pior não é lidar em silêncio com a situação. Grave é não perceber que se está a lidar com ela.



Os maus-tratos à mulher não passam apenas por uma mão que bate erradamente no lugar errado, a violência é extensiva a todo acto que menospreza, diminui, coage, limita e a faz desaparecer.

Durante anos, séculos, na maioria das culturas o papel do sexo feminino não passava por exigir e aplicar os seus direitos, pois não os tinham, apenas se limitavam a cumprir a sua função de "ser menor": procriar, servir e obedecer. Por sorte para nós, a irreverência de algumas mulheres no século passado permitiu que hoje, também na maior parte das culturas, a mulher tenha voz.

Mas a realidade não acompanha as leis, nem a lógica ou os direitos adquiridos, a realidade viola cada dia, de uma maneira ou de outra, a liberdade a que todo ser humano tem direito, e fá-lo escolhendo, uma vez mais, o seu protagonista histórico: a mulher.

Desenganem.se aqueles que não vêem na chantagem emocional e económica, na descriminação, ou no assédio, uma forma de violência.



Quantos homens não privam as mulheres de vidas dignas depois de uma separação? quantos não jogam com o factor económico para as humilhar? quantas mulheres não têm de ouvir piadas sobre si ou o seu físico no local de trabalho, até naqueles dias em que têm de sorrir e fingir achar graça  para não ser vista como uma seca, quando o que apetece mandá-los à merda? a quantas mulheres não é pedido que usem saltos e se produzam nas empresas onde trabalham porque "impacta mais aos investidores"? quantas mulheres não ganham menos ou deixam de ser promovidas tão só porque nasceram com um pipi? quantas mulheres são obrigadas a casar contra sua vontade? miúdas? quantas são assassinadas por não aceitarem que as privem de viver em vida? quantas não têm de fugir de sua casa e país para poderem respirar?

Sim, decidimos ignorar estas realidades escondendo-nos detrás do chavão "ah mas ela dá bola porque até gosta" "a mim  nunca ninguém me disse piadinhas, por algo será" "só ouve quem quer" "não se queria separar? sabia as consequências" "não quer que a tratem assim tem bom remédio, saia" "são outras culturas, não percebemos todos os seus propósitos, não nos podemos meter". É tão fácil, assim visto!

Há quem já ache muitas destas agressões como algo normal, parte da sociedade e da nossa condição homem // mulher. É tudo tão frequente que já é banal e aceitável, é cultural, é a vida...

Que não passe mais um dia sem que cada mulher, em todos os cantos do mundo, perceba, ao menos perceba e não se deixe iludir nem cegar, de se é ou não vítima de algum destes tipos de violência machista.


Para se ser vítima de violência não há que ter um olho roxo.




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