sábado, 19 de setembro de 2015

os KilóMetros que eu andei


Enquanto estudava não tinha carro, andava de metro e autocarro para ir às aulas, e quando o programa nos levava para outras paragens que não as paredes da Universidade, recorria a boleias, boleias e mais boleias dos meus colegas, a que muito agradeço os desvios feitos para me pegar e deixar sã e salva em casa.

Agradecida por todos esses serviços de estafeta, que não se contam às centenas mas que fizeram uma grande diferença no meu conforto e mobilidade, decidi que um dia em tendo carro ajudaria toda a gente que mo pedisse, não deixaria ninguém em terra por falta de meios para se deslocar, iria, viria, desviaria mil vezes o meu caminho para casa para facilitar a vida a quem precisa. Eu sabia e sei o que custava estar carregada de livros, de sabrinas encharcadas à espera do 68, do 31, do 59, do 42 ou do 24, eu sabia o que era passar esse friozinho, ou esse insuportável calor, ter pressa, estar cansado, adormecer sem saber onde estou, acordar sobressaltadas a ver se já passou, deixar cair apontamentos por falta de mãos para abraçar tudo o que carrego e ainda fazer malabarismos para encontrar o passe e picá-lo religiosamente, eu sabia e sei o que é deixar de ir, não alinhar, porque só de pensar em apanhar o bus ou descer até ao metro me dava vertígens, ficar na caminha soava bem melhor...

E assim foi, licenciei-me e ajudaram-me, mestrei-me e ajudei. O ser humano é bom, é bom enquanto é novo, jovem, livre, sonhador, crente, feliz, despreocupado, acelerado, esperançado e futurista.

Esse ser humano que um dia cresce, entra no mundo do trabalho, no dia de amanhã para esquecer o de hoje, e nesse dia esquece o generoso que foi, o generoso que foram com ele, conta os pingos de gasolina, faz contas à vida, esquece a loucura de ficar sem combustível e empurrar o carro, as gargalhadas dadas, a amizade reforçada, o desespero e cansaço dentro da felicidade de estar vivo...

E toda esta melancolia do muito que se era metido num pequeno exemplo básico, o de deixar de saber o que é "dar boleia", o saber que um amigo não vai a uma festa, a um jantar, a um colóquio ou à merda, porque não tem como, e tu olhas para o lado, assobias e...e...não se fala mais disso que amanhã às 8h tenho de estar levantado para trabalhar (como o tinhas de estar para estudar) e a gasosa está cara e o dinheiro não estica (tal como não esticava a mesada) e faz-se tarde (como se faziam as directas de estudo com exame no dia a seguir) e o desvio não me dá jeito (como não dava antes, mas faziamos e faziamos por fazer) e é assim que os anos passam, as pessoas azedam, desligam, apagam, ficam baças, transparentes, invisíveis, porque não se dão, não se deixam ver, não sabem amar os amigos, não sabem respeitar o jovem que foram, o melhor de si, substituem tudo por caras largas, como se para ser doutor fizesse falta fazer caras sérias, como se o seu fingido estatuto dependesse das negas que dão em vez do muito que se dão ao mundo.

Pobre sociedade esta onde os jovens morrem para dar lugar a múmias infelizes, pobres, vazias, convencidas de que são nada sendo e desligadas do muito que poderiam ser se voltassem a acreditar que é bom estar vivo, que é bom estar cá, com os que cá estão!


"O menino que fui chora na estrada...." 
(a bom entendedor...)

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